O Domínio de Si Mesmo
A sugestão, ou antes a auto-sugestão, é um assunto completamente novo e ao mesmo tempo tão antigo quanto o mundo.
É um assunto novo porque, até hoje, foi mal estudado e, por conseguinte, não muito conhecido; é antigo, por datar da aparição do homem na terra.
De fato, a auto-sugestão é um instrumento que nasce connosco, e este instrumento, ou melhor esta força, é dotada de um poder inaudito, incalculável, que, conforme as circunstâncias, produz os melhores ou os piores efeitos.
O conhecimento desta força é útil a cada um de nós e, particularmente, é indispensável aos médicos, aos magistrados, aos advogados e aos educadores da mocidade.
Logo que a sabemos pôr em prática, de uma maneira consciente, devemos evitar, em primeiro lugar, provocar nos outros as auto-sugestões malignas, cujas consequências podem ser desastrosas, depois provocamos, conscientemente, as auto-sugestões benignas, que levam a saúde moral aos que sofrem de nevrose, aos desencaminhados, vítimas inconscientes de auto-sugestões anteriores, e que conduzem ao bom caminho os espíritos com tendência a seguirem o mal.
O ser consciente e o inconsciente
Para bem compreender os fenómenos da sugestão, ou, mais acertadamente, da auto-sugestão, é preciso saber que há em nós dois indivíduos completamente distintos um do outro.
Ambos são inteligentes, mas enquanto um é consciente, o outro é inconsciente. É a razão pela qual a sua existência, geralmente, passa despercebida.
Entretanto, esta existência pode ser facilmente constatada, desde que se tenha o trabalho de examinar certos fenómenos que sobre eles se queira reflectir bem, por alguns instantes. Exemplifiquemos:
Todos sabem o que é sonambulismo e que o sonâmbulo levantando-se à noite, sem estar acordado, sai do quarto depois de mudar ou não a roupa, desce as escadas, atravessa corredores e, após ter praticado certos actos ou terminado certo serviço, volta ao seu dormitório e deita-se novamente.
No dia seguinte, demostra a maior das admirações por encontrar feito um trabalho, que, na véspera, deixara por acabar.
Entretanto, foi ele quem o fez, se bem que o não saiba. A que força obedeceu o seu corpo, senão a uma força inconsciente, ao seu ser inconsciente ?
Consideremos, agora, o caso muito frequente, de um infeliz alcoólico atacado de delirium tremens.
Como que tomado de um acesso de loucura, ele se apodera de uma arma qualquer, uma faca, um martelo, um machado, e fere, fere furiosamente aqueles que têm a infelicidade de se lhe acharem perto.
Depois de passado o acesso, o indivíduo recobra os sentidos e contempla, horrorizado, a cena de sangue que a sua vista oferece, ignorando ter sido ele mesmo o seu autor. Ainda neste caso, não foi o inconsciente que conduziu esse desgraçado ?
Se compararmos o ser consciente ao ser inconsciente, constatamos que, enquanto o consciente é frequentemente dotado de uma memória muito falha, o inconsciente é, ao contrário, provido de uma memória maravilhosa, impecável, que guarda, sem o sabermos, os menores acontecimentos, os mais insignificantes factos de nossas vidas.
E, como é ele quem preside o funcionamento de todos os nossos órgãos, por intermédio do cérebro, dá-se um facto, que decerto parecerá paradoxal: se ele julgar que esse ou aquele órgão funciona bem ou mal, ou julgar que sentimos esta ou aquela impressão, este ou aquele órgão, de fato, funciona bem ou mal, ou então, nos sentimos com esta ou aquela impressão.
O inconsciente não preside somente as funções do nosso organismo, preside também o acabamento de todas as nossas acções, quaisquer que sejam elas.
A ele é que chamamos imaginação, e é quem, ao contrário do que se admite, nos faz sempre agir, mesmo e sobretudo contra a nossa vontade, desde que haja antagonismo entre essas duas forças.
Vontade e imaginação
Se abrirmos um dicionário e procurarmos saber o significado da palavra vontade, encontraremos esta definição: “Faculdade de praticar ou não, livremente, algum ato”. Aceitaremos esta definição como verdadeira, irrepreensível.
Mas não pode haver maior engano, pois esta vontade que reivindicamos com tanta altivez, cede sempre o passo à imaginação. É uma regra absoluta que não padece excepção alguma.
“Blasfémia! Paradoxo!” – bradarão. De forma alguma. “Verdade, pura verdade”, lhes responderei.
E, para se convencerem, abram os olhos, olhem em torno de si e saibam compreender aquilo que vêem. Hão de ver, então, que o que lhes digo não é uma teoria aérea, produzida por um cérebro doente, mas a simples expressão daquilo que realmente é.
Suponhamos que há no solo um tábua de 10 metros de comprimento por 25 centímetros de largura. Está claro que todo mundo é capaz de ir de uma ponta a outra dessa tábua, sem pôr o pé fora dela.
Mudemos porém, as condições da experiência e façamos de conta que essa tábua está colocada à altura das torres de uma catedral.
Quem terá, então a coragem de avançar um metro apenas, nessa estreita passagem ? São os senhores que me lêem ? Não, sem dúvida. Antes de derem dois passos, começarão a tremer e, apesar de todos os esforços de vontade, fatalmente cairão ao solo.
Observem que os senhores têm boa-vontade de avançar; se imaginam que o não podem, ficam na impossibilidade absoluta de fazê-lo.
Se os pedreiros, os carpinteiros são capazes de executar esse ato, é porque eles imaginam que o podem fazer.
A vertigem só é causada pela imagem que se nos afigura de que vamos cair; essa imagem se transforma imediatamente em ato, apesar de todos os nossos esforços de vontade, tanto mais depressa quanto mais violentos são esse esforços.
Consideremos uma pessoa atacada de insónia. Se ela não faz esforços para dormir, ficará sossegada no leito. Se, ao contrário, quer dormir, quanto mais se esforça mais agitada fica.
Não sei se observaram que, quanto mais a gente procura se lembrar do nome de uma pessoa, que se julga ter esquecido, mais ele foge à lembrança, até o momento em que, mudando-se no espírito a ideia de “não me lembro” pela de “já me lembro”, o nome nos vem naturalmente sem o menor esforço.
Aqueles que andam de bicicleta se recordam de que, quando aprendiam a andar nessa máquina, iam pela estrada, segurando-se no guidão, na persuasão de que iriam cair.
De repente, enxergando no meio do caminho um cavalo ou, mesmo simplesmente uma pedra, procuravam evitar o obstáculo; porém, quanto mais esforços faziam, mais iam em direcção a ele.
A quem não aconteceu dar uma gargalhada, uma risada que estalava tanto mais impetuosamente quanto maiores eram os esforços que faziam para a conter ?
Qual era o estado de espírito de cada um, nestas várias circunstâncias ? Eu não quero cair, mas não posso impedi-lo; quero dormir, mas não posso; quero lembrar o nome da senhora Tal, mas não posso; quero evitar o obstáculo, mas não posso; quero conter a minha risada, mas não posso.
Como se vê, em cada um desses conflitos é sempre a imaginação que sobrepuja a vontade, sem excepção alguma.
Seguindo a mesma ordem de ideias, não vemos um comandante que se precipita para diante, à frente das suas tropas, e os seus subordinados acompanhá-lo, ao passo que o grito: “salve-se quem puder” determina, quase fatalmente, uma derrota ?
Por que ? Por isto que, no primeiro caso, os homens se persuadem de que devem marchar para a frente.