O Caminho do Perdão


“Também os frutos que a tua alma cobiçava foram-se de ti e todas as coisas delicadas e suntuosas se foram de ti e nunca mais serão achadas.” (Ap 18:14)

Assim está escrito e assim deveria se cumprir, se o Pai Celestial não fosse um Deus Vivo de perdão e amor, capaz de reconhecer as falhas de um filho seu e se rejubilar com a sua volta, ainda que tenha vivido mergulhado nas trevas e chegado ao fundo do mais escuro dos poços a que um homem pode chegar.

Em meus muitos anos de pregação, tenho visto muita alma se perder por sua própria vontade, pelo seu orgulho, pela deliberada intenção de se deixar atrair pelas ilusões do diabo, que enche suas armadilhas de luzes e atrações cheias de beleza para esconder o horror e a danação que esperam aqueles que se deixam enganar.

“Contudo se tu avisares o ímpio e ele não se converter da sua impiedade e do seu mau caminho, ele morrerá na sua iniqüidade, mas tu livraste a tua alma.”(Ez 3:19)

É bem clara a citação de Ezequiel, que tranqüiliza aquele que tenta salvar da
iniqüidade o pecador, mas isso não o livra da dor de ver um irmão se perder, fugindo da proteção de Deus para se deixar iludir pelo demônio.

Como pregador, sofre-se em dobro a cada ovelha perdida, mas há tantas a serem salvas que a perda de uma pode ser compensada pela salvação de centenas. Aquela que se perdeu, no entanto, é um duro golpe no coração do pastor, que jamais há de se conformar com essa perda.

A fé no Deus vivo e na sua obra, a crença na força de sua palavra, no entanto, não devem ser esquecidas. Se o diabo seduz, o poder de Deus cura o deslumbramento. Se o diabo destrói, a fé no Senhor Jesus reconstrói. Se o diabo arrasta para a lama, o Espírito Santo purifica. É assim que tem que ser.

Em minhas pregações, vejo pessoas que hoje participam e oram juntas na igreja, num testemunho vivo do poder e da glória do Senhor Deus, de seu Filho e do Espírito Santo. Poucos sabem, porém, de seus dramas e de suas histórias.

Quem os vê hoje, esbanjando saúde, prósperos, com uma empresa em expansão ou com um bom emprego, com uma boa casa, carro do ano, celular, parabólica e todo o conforto que o dinheiro pode comprar,pode achar que são pessoas de sorte, que nasceram em berço de ouro.

Poucos conhecem suas jornadas ao fundo do poço da qual jamais esperavam sair, não fosse a o milagre da palavra e o infinito perdão do Pai e da graça do Espirito Santo.

Descrentes e desesperados, quando mais nada lhes restava, o poder da Palavra os tocou e eles abriram seus corações para Jesus, que os resgatou das trevas.

Tenho certeza,como tenho certeza no poder de Deus, que neste momento há muita pessoas assim, em desespero, mas orando e perseverando, enquanto choram lágrimas de sangue e de sofrimento. A elas a minha bênção e o meu conforto e a certeza de que Ele não deixará que suas orações sejam em vão.

Conheçam esses testemunhos. A pedidos, nomes e sobrenome foram mudados. Que a Glória de Deus recaia sobre todos vocês!

Capítulo 1

“E o Senhor vos espalhará entre os povos e ficareis poucos em número entre as nações para as quais o Senhor vos conduzirá.

Lá servireis a deuses que são obra de mãos de homens, madeira e pedra, que não vêem, nem ouvem, nem comem, nem cheiram.

Mas de lá buscarás ao Senhor teu Deus e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma.

Quando estiveres em angústia e todas estas coisas te alcançarem,então nos últimos dias voltarás para o Senhor teu Deus e ouvirás a sua voz, porquanto o Senhor teu Deus é Deus misericordioso e não te desamparará, nem te destruirá, nem se esquecerá do pacto que jurou a teus pais.”(Dt 4:27-31)

Naquela manhã quente de primavera, quando as lojas começavam a se enfeitar para as festas de fim de ano, os empregados da Salgado & Filhos Ltda. esperavam pelas ordens do patrão que, naquele momento, iniciava um estranho ritual.

— Que cheiro ruim, seu Salgado!
— protestou uma das empregadas.
— Não é tão ruim assim, Maria! É um defumador que espanta o azar e atraí dinheiro, clientes e lucro. Neste final de ano eu espero vender como nunca. Tenho certeza que vamos arrebentar no faturamento.

— Ao invés de fazer toda essa fumaceira, porque a gente não reza simplesmente?
Meu pastor disse que…
— Eu sei o que o seu pastor disse, Maria. Bota dinheiro na sacolinha que tudo vai mudar! Eu sei disso. Vai mudar para ele!
— Não fala assim, seu Salgado! O senhor está falando de um homem de Deus.
— Esse aqui é o deus dele — falou o comerciante, retirando uma nota de cem reais do bolso e mostrando para a empregada que, naquelas alturas, achou melhor se calar para evitar confusão.

Com um prato de barro cheio de brasas na mão, Salgado percorria as dependências da loja, jogando um pozinho malcheiroso, que se transformava numa fumaça esverdeada e nauseante.

Algumas das moças que ali trabalhavam preferiram sair, pois não estavam suportando o mau cheiro. Quando terminou aquele ritual, Salgado apanhou sete velas e as colocou ao redor de um prato. Dentro do prato ele colocou um punhado de sal grosso, açúcar e sete moedas do mesmo valor. Acendeu as velas e rezou uma oração esquisita, que trazia escrita numa folha de papel.

— Jesus Cristo, seu Salgado! O que é isso agora?
— quis saber Maria, já horrorizada com tudo aquilo.
— Estou lhe dizendo, Maria, este vai ser o nosso ano. Quero ganhar muito dinheiro e…
— Que adianta ganhar dinheiro e perder a alma?
— Pára com isso, Maria! Esse negócio de igreja está deixando você muito medrosa. Isso aqui não faz mal para ninguém, só ajuda!
— Só ajuda? E se os seus concorrentes fizerem o mesmo, como é que fica?
— Quem tiver mais fé, sai ganhando e, nesses assuntos, eu sou mais eu. Ainda mais que tenho mais uma coisinha para me ajudar.
— falou o comerciante, começando a desembrulhar um pacote.

— Enquanto eu preparo isto aqui, mande as meninas começarem a fazer a decoração de natal. Vamos abrir mais tarde hoje, depois que eu terminar minhas simpatias e minhas rezas.

— Se quer tanta ajuda para se sair bem, por que não chama um pastor para vir orar aqui?

— Que pastor, que nada, Maria! Chamei um benzedor dos bons. Meu motorista foi buscá-lo. Deve chegar daqui a pouco. Enquanto isso, olhe o que tenho aqui para me ajudar.

Quando ele terminou de desmanchar o embrulho, Maria sentiu um nó no estômago. Eram imagens de santos de todos os tamanhos, feitas de gesso e pintadas grotescamente, sem beleza e sem serventia alguma.

— O senhor já leu a Bíblia, seu Salgado?
— perguntou-lhe Maria.

— Já li mais de dez vezes. Quando eu fazia catecismo, tinha que ler toda semana.

— E por acaso se lembra do que estava escrito em Deuteronômio:6.

O comerciante interrompeu seu trabalho de arrumar as imagens num pequeno altar, olhou para a empregada e começou a rir.

— E por acaso você se lembra, Maria?

— Pois eu me lembro. Diz assim: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim.

Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; não te encurvarás diante delas, nem as servirás, porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam e uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.”

— Meus parabéns, Maria! Tem uma boa memória. Espero que se lembre de me agradecer, quando receber as comissões das vendas que vamos fazer neste final de ano.

Estas imagens aqui são apenas a lembrança dos santos, uma espécie de recordação, como a fotografia do seu namorado que eu sei que você traz na carteira e olha de vez em quando.

— É diferente, seu Salgado. Eu não presto culto ao meu namorado. Eu tenho amor por ele, entende?

— No fim, é tudo a mesma coisa, Maria. Agora deixa para lá. Esse que está chegando aí é o benzedor. Vou recebê-lo.

Horrorizada, Maria viu o patrão, um homem aparentemente inteligente e culto, bem vestido e bem falante, ir ao encontro de um indivíduo esquisito, com uma roupa cheia de penduricalhos, um rosário no pescoço e olhos escuros e profundos.

Conversaram por alguns instantes, depois o homem retirou um ramo de arruda de uma velha mala e começou a agitá-lo no ar, enquanto caminhava pelo estabelecimento, murmurando algo que parecia ser uma oração, mas que ninguém entendia.

— Isso me parece coisa do diabo!
— comentou Maria com sua amiga Sandra.
— Deixa de pegar no pé do patrão, Maria. Você está ficando muito chata com esse negócio de igreja. Se der certo toda essa maluquice que ele está fazendo, nós só temos a ganhar.

Vamos ter ótimas vendas e passar um final de ano tranqüilo. Estou precisando de dinheiro e não me importa se tiver que aturar todo esse fedor e essas loucuras para conseguí-lo.

— Que proveito terá o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? O que dará o homem em troca da sua alma? — comentou Maria, lembrando Mateus 16:26.

— Não embaça, Maria! Não se faça de santa, porque eu sei que você precisa tanto de dinheiro quanto qualquer uma de nós. Agora vamos trabalhar, antes que o patrão fique bravo com a gente.

A contragosto, Maria atendeu a recomendação da amiga. A loja, depois da defumação e da passagem do benzedor, ficara com um clima esquisito, que provocava calafrios. A cada vez que ela olhava para o altar cheio de imagens que o patrão tinha montado num canto da loja, ela se sentia mal.

Como precisava do emprego, resolveu usar o bom senso e esperar uma ocasião mais adequada para voltar ao assunto. Antes, porém, pretendia pedir orientação ao seu pastor já que, naquele ambiente, estava difícil para ela trabalhar.

Terminaram de fazer a decoração natalina na loja e as portas foram abertas. Enquanto isso acontecia, silenciosamente Maria fez uma oração, pedindo que o Espírito Santo iluminasse a todos ali e que tudo que o patrão havia feito fosse perdoado.

Poucos clientes apareceram. O Plano Real ainda era uma incógnita e todos diziam que a vida iria melhorar, principalmente para as classes menos privilegiadas.

Maria torcia para que isso acontecesse, pois pretendia, com o fruto do seu trabalho, dar um pouco mais de conforto a sua família, já que seu pai era aposentado por invalidez e recebia muito pouco. No fim, ela arcava sozinha com o orçamento da casa.

Sua irmã mais nova apenas estudava. Maria fazia questão que ela se empenhasse nisso, pois acreditava que o estudo era a maneira mais digna e correta de ser alguma coisa na vida.

Ultimamente, porém, andava preocupada com a irmã, que demonstrava uma certa revolta com tudo e com todos. Parecia que, de uma hora para outra, havia se desiludido com a vida modesta que viviam, aspirando coisas além de suas possibilidades.

Maria se preocupava com ela. Como freqüentava um bom colégio, graças ao sacrifício da irmã, com certeza via as colegas bem vestidas, sempre exibindo novidades e queria fazer o mesmo. Além disso, havia arrumado um namorado que, pelo que Maria sabia, não era uma boa pessoa.

Havia rumores de que se tratava de um traficante. Andava num carro do ano, vestia-se bem e, com certeza, tinha tudo para impressionar uma garota inocente e ingênua como Úrsula, a irmã de Maria.

— Senhor Jesus, dê juízo a minha irmãzinha! — costumava rezar.

Autor : L.P. BAÇAN

Edição do Autor. Autorizadas a reprodução
e distribuição gratuita desde que sejam
preservadas as características originais da obra.

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