Estresse O Demônio do Século


Estresse o mal que afeta milhares de seres humanos , sendo discutivo e colocado de forma científica.

O conceito de estresse surgiu cientificamente em 1936, pelo endocrinologista Hans Selye, dando origem a diversos artigos e estudos, que foram consolidados em livro em 1950.

Segundo esse pesquisador, o estresse era um estado comum a diversas situações de agressão ao corpo do indivíduo, seja em seu aspecto físico, seja em seu aspecto psicológico.

Entre outras coisas, o estresse compreendia também a ação e a reação a situações ou condições não especificadas. Tanto podia ser uma situação de defesa como de busca de equilíbrio ou de solução.

O primeiro estágio dessa situação é a chamada reação de alarme, constituída de duaspartes: a fase de choque e a fase de superação do choque e preparação da defesa. O segundo estágio é o da resistência, onde acontece a adaptação à situação.

Se esta persistir, ocorrerá um terceiro estágio, o da exaustão, onde o mecanismo de adaptação entrará em colapso.

A reação de alarme é caracterizada por uma excitação geral do organismo, com aumento dos batimentos cardíacos, descarga de adrenalina, o tônus muscular e a circulação sangüínea se alteram, o estômago passa por uma espécie de convulsão, no clássico sintoma do “frio na barriga”.

Se essas condições persistirem, o organismo entrará em colapso.

Surgirão problemas de hipertensão, úlceras, irritabilidade e demais sintomas que caracterizam o estresse.

Numa linguagem científica amenizada e acessível, é isto o que ocorre numa situação de tensão. Os exemplos, a seguir, tornarão mais claros os conceitos.

O ACIDENTE

Trafegando por uma rodovia movimentada, num dia chuvoso, Carlos derrapou e bateu o carro, ferindo sua esposa e sua filha. Em desespero e arriscando sua vida, ele saiu para o meio da rodovia, pedindo socorro. Quando viu a cena, Carlos experimentou a chamada situação choque, reagindo em seguida.

Naqueles momentos críticos seu coração disparou, a adrenalina inundou seu organismo.

São em momentos assim que se reportam casos de extrema força, resultado da alteração do tônus muscular e das condições gerais geradas pelo estresse.

No exemplo, Carlos presenciou uma agressão contra si e contra outras pessoas. Essa agressão foi física, pelos efeitos do acidente em seu organismo, e psicológica, pelo desespero em ver os entes queridos naquele estado.

No momento, ele poderia permanecer em choque, e nada fazer, mas a reação do estresse, alterando sua circulação e seu tônus muscular, descarregando adrenalina em seu organismo, fizeram-no reagir e ele correu em busca de socorro.

Nesta situação, Carlos poderia até ter sofrido um dano interno muito grande no acidente, mas até a dor seria esquecida, em função de sua reação.

Passada a situação, seu físico voltará ao normal e ele sentirá os efeitos do acidente, como dores e outros incômodos.

Por outro lado, se a situação de estresse persistir. Se Carlos continuar no meio da rodovia, pedindo socorro, sem ser atendido, chegará um momento em que ele entrará em colapso e seu corpo atingirá o chamado estágio de exaustão.

Esta situação enfrentada por Carlos não difere daquela enfrentada por nossos
ancestrais, no meio de uma floresta pré-histórica, diante de um gigantesco lagarto, ou por um animal acuado, preparando-se para reagir.

Segundo os pesquisadores, essa reação tem sido a mesma ao longo da evolução,mudando-se, obviamente, o tipo e forma da agressão. Chamam a isso instinto de luta ou fuga, que provoca no homem e nos animais aquele estado de atacar a ameaça ou fugir dela.

Em qualquer das situações, as mudanças que ocorrem no momento do estresse, ou seja, o aumento da pressão, do ritmo respiratório, do sangue, do tônus muscular, do ritmo cardíaco, etc., predispõem o homem a enfrentar à altura o perigo ou a ameaça.

Ao longo do tempo, porém, as ameaças que exigiam essa resposta de fuga ou luta foram se modificando. No presente século, o homem não luta mais contra animais para sobreviver, mas enfrenta o trânsito pesado, o trabalho desgastante, as tarefas rotineiras, a violência urbana, os problemas familiares, tudo isso, enfim, com o sedentarismo próprio dos nossos dias.

Nesses momentos, a resposta de luta ou fuga, ao sobrecarregarem um corpo sem nenhum condicionamento físico para suportá-la, fatalmente provocará um enfarte ou um derrame.

A convivência com situações estressantes levará também ao desenvolvimento de ulcerações no estômago, agravados por uma alimentação inadequada, rica em gorduras e açúcar, alternada com o álcool em excesso, nicotina e, não raro, drogas.

A CONVIVÊNCIA COM O ESTRESSE

A mulher que trabalha fora vive uma dualidade perniciosa para seu organismo, pois acumula estresse de duas formas, seja no trabalho, seja nos afazeres domésticos, tendo de conciliar as duas atividades nem sempre com muito sucesso.

Disso vai resultar um acúmulo de tensão em seu organismo, que pode evoluir para o desenvolvimento dos sintomas gerais do estresse, como a úlcera e a hipertensão.

Alie-se a isso as condições de trabalho normalmente impostas às mulheres, como menor remuneração e o difícil acesso a promoções ou reconhecimento, além de situações de estresse como pressões machistas ou casos de assédio sexual e teremos elementos para entender o aumento do consumo de fumo e de álcool pelas mulheres, verificado nos últimos anos deste início de século.

Como se não bastasse isso, os efeitos desse desregramento começam a se manifestar, refletindo-se também no aumento dos casos de hipertensão e suas conseqüências: enfartes e derrames.

Comentar esses problemas com o homem é redundante, pois a competitividade cada vez mais cruel, não só entre o homem mais velho contra o mais novo, mas de todos eles contra o computador e as máquinas já exibe seus efeitos nas regiões mais industrializadas.

Basta analisar o número de metalúrgicos e de bancários demitidos, em função da automação e da robotização da produção, para usarmos duas das maiores e mais bem organizadas categorias profissionais do país que, a despeito disso, não conseguiram evitaresse descompasso.

O homem moderno trabalha de olho no emprego e na rua, pois a qualquer momento a crise vai atingí-lo. Conviver com isso é como olhar nossos ancestrais vivendo na selva, entre animais pré-históricos ameaçadores, lutando literalmente pela sobrevivência.

Essa tensão constante e a incapacidade ou desconhecimento de se lidar com esse mal têm levado muita gente ao desespero, às doenças crônicas, ao alcoolismo, às drogas, como fuga ou meio de amenizar essas reações físicas que nada mais são que reações do próprio organismo às influências negativas do seu mundo.

Lamentável, por um lado, mas ironicamente salutar por outro, percebemos que, ao ceder o espaço precioso do confessionário às seitas mais estapafúrdias, exploradoras da crendice e do dinheiro popular, a Igreja popularizou o lenitivo aos problemas da vida atual, oferecendo, ainda que de forma e resultado questionável, a solução para muitos
desesperados.

O preço a ser pago pelos indivíduos por isso somente será dimensionado com o tempo, quando, de volta à lucidez, as pessoas perceberem a manipulação a que foram sujeitas. Nesse momento, o estresse resultante poderá levá-las a uma reação salvadora ou, o que será pior, a uma exaustão, com um colapso de difícil previsão.

O ESTRESSE SALUTAR

Os atletas estão alinhados na marca de partida. O estádio está superlotado. As
câmaras de televisão estão focalizadas neles, esperando o sinal de partida. Fotógrafos do mundo inteiro apontam seus flashes para eles. Cada um sente seu coração disparar.

A adrenalina entrando em sua corrente sangüínea acelera os batimentos cardíacos e deixa seus músculos numa tensão incrível.

Todos estão atentos ao sinal de largada. De repente, é feito o disparo. Toda aquela tensão contida pelos corredores é liberada numa explosão de energia que faz seus músculos atingirem o máximo do esforço e todos os sentidos se concentrarem no objetivo final, a linha de chegada.

Naquele momento, cada um dos corredores passou por uma situação de estresse, reagiu e explorou as reações químicas e físicas de seu corpo para obter um máximo de rendimento e desempenho, tentando bater um recorde ou chegar à vitória, ao sucesso e à aclamação popular.

Aqui temos uma situação de estresse completamente diferente, em seus objetivos, dos exemplos anteriores. Neste caso, o estresse foi positivo e resultou num ganho de rendimento, numa situação onde não havia perigo, mas competição.

Num outro caso, Roberto é um policial numa cidade grande e particularmente violenta. Ao realizar uma batida policial, ele empunha sua arma e vai esgueirando contra a parede, atento e tenso, imaginando o que vai ter pela frente.

Aparentemente controlado externamente, dentro dele um verdadeiro vulcão está prestes a explodir. Toda a sua tensão está no trabalho que faz, no risco, no perigo.

Ele surge diante do malfeitor com todos os músculos e sentidos prontos para reagir e grita: “Mãos ao alto! Não se mexam!”

Quando a situação está finalmente controlada, Roberto relaxa e fica daquilo tudo uma sensação de cansaço.

Na medida em que essas situações começam a se repetir muitas vezes por dia, com o estresse se manifestando constantemente, vai chegar o momento em que o organismo dele atingirá o ponto de exaustão.

Nesse momento, longe de agir com atenção, ele poderá simplesmente não reagir e comprometer sua própria vida. A convivência com o estresse, em situações repetidas de perigo, pode levar facilmente um homem à exaustão. Por isso os plantões policiais, em casos assim, são mais espaçados, dando ao policial tempo de se recuperar do desgaste sofrido.

O PODEROSO COMBUSTÍVEL

Alfredo recebeu uma missão de última hora. Alguém se esquecera de um detalhe de suma importância num projeto decisivo para a empresa onde ele trabalhava. Corrigir aquilo exigiria o trabalho de alguém altamente capacitado e com um rendimento no trabalho superior à média dos demais.

Em resumo, aquele era um trabalho para o Alfredo. Após ter recebido a missão e observado pelo relógio que era uma tarefa quase impossível, ele não se deteve por isso e foi à luta. Sentou-se no computador e em menos tempo do que imaginava, concluiu o trabalho.

Enquanto estava ali, todos os seus sentidos estavam em alerta. Seu raciocínio era claro no rumo definido. Seus músculos e nervos trabalhavam coordenados com os impulsos cerebrais.

Apesar da excitação, ele canalizava aquilo, transformando todas aquelas reações de seu corpo em criatividade pura, terminando a tarefa com uma sensação de alívio e relaxamento.

Alfredo aproveitou todas as vantagens positivas do estresse, utilizando-as em proveito próprio para terminar a missão recebida. Obviamente aqueles momentos de tensão foram passageiros e depois, no reconhecimento, nos elogios e, possivelmente, numa promoção, ele encontrou sua compensação.

Logicamente, se Alfredo tivesse de viver essa situação diariamente, em pouco tempo seu organismo iria começar a se ressentir.

Se aliasse a isso uma alimentação inadequada, salário baixo, enchendo-o de
problemas com dívidas, somado a questões particulares de relacionamento com a família, com a esposa ou com os filhos. Ou se Alfredo detestasse aquele trabalho, somente fazendo-o, com enorme sacrifício, porque era a única coisa disponível no momento.

Autor : L.P. Baçan

Edição do Autor. Autorizadas a reprodução
e distribuição gratuita desde que sejam
preservadas as características originais da obra.

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